Textículos do Mário Mércio

Mário Mércio
Colunista do blog

Vamos dar uma voltinha?
Na minha época dar um rolezinho era dar uma voltinha.
Esta expressão nasceu como sinônimo de passeio, superficialidade e descompromisso, mas que agora está recebendo conotações de distanciamento.
Dar uma voltinha já era! Agora As redes sociais convocam a meninada para um rolezinho...
Uma definição grosseira de nosso idioma. Diminutivo de rolê e não de rolo.
Vários cronistas tem se debruçado sobre o novo tipo de encontro nos shopping, nome horrível americanizado que inventaram aos grandes centros de compras. 
Numa recente pesquisa em SP, os rolezinhos tiveram a seu favor 82% da preferencia popular que não aceitaram sua proibição nos shoppings da cidade. E a pesquisa está correta a meu ver.
Não podemos viver num país em constante divisão de classes sociais. Como se pobre fosse uma marca e rico ou remediado outras marcas. Ambos sabem que coexistem, mas fingem não existir. Ou que existam longe um do outro. São resquícios de um país com enormes diferenças sociais, tipo um apartheid brasileiro, como diz um cientista político. E a palavra democracia existe apenas no período eleitoral, onde se prega que todos são iguais, pois o voto do pobre tem o mesmo valor do voto do rico ou do remediado.
Nem todo pobre em lugar luxuoso é ladrão. E nem todo rico em lugar de pobre é patrão.
Os jovens do rolezinho em “templos de consumo”, leia-se shoppings, evidenciam a chamada “era de hiperconsumo”, nela não basta ser, é preciso ter. Estes jovens manifestam o desejo de pertencimento à toda a sociedade, com gritos barulhentos e roupas extravagantes , por inclusão. Uma inclusão social não aceita visivelmente por boa parte do povo dito sociável.
São jovens que carregam inconscientemente uma bagagem discriminatória desde a barriga da mãe, ao emprego do pai, a escola e a vida na periferia e hoje, vem ao shopping com esse protesto até bem-humorado contra um ato de privação de direitos, cansados de serem vistos como “perigosos” e baderneiros. (não vamos considerar que no meio deles, alguns fazem badernas mesmo).
Essa filosofia social enraizada em nosso meio, que cada um tem o seu lugar e onde cada um deve saber qual o seu lugar, é um nefasto ato de discriminação, pois todos somos iguais, pegamos impostos e somos brasileiros, irmãos perante Deus e compatriotas perante o estado.
Este pensamento retrógrado agride a democracia e nos mostra a capacidade de dialogar com a juventude e a entender suas transformações. A justiça, a policia e a sociedade precisam se atualizar para reconhecerem esse fenômeno como legítimo. E estas manifestações “rolezinhos” são formas de cobrar esta igualdade. Este apartheid é real e não temos por aqui um Nelson Mandela para lutar, mas existem muitos brasileiros cônscios que bem podem representar um Mandela brasileiro.

Agora por favor, me permitam um momento, pois vou dar um rolê e já volto...

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