Textículos do Mário Mércio

Mário Mércio
Escritor e colunista do blog

O FILÓSOFO
Ninguém sabia ao certo do que o Alcino Junqueira vivia, menos oque fazia. Sobre ele só havia uma certeza: era um rapaz culto e vivia sempre lendo, na praça, no bar e na varanda de sua casa. Não ia a festas, e costumava dizer que não tinha tempo a perder com bobagens...
--Culto não, erudito – corrigia o dr. Vespúcio, um advogado à moda antiga que iniciava qualquer conversa dizendo “data vênia” ou “ salvo melhor juízo”.
Todos concordavam com isso, até por que em Caixa-Prego só o dr.Vespúcio, sabia o significado da palavra “erudito”.
Alcino morava sozinho numa casinha alugada de dona Júlia. Era um sujeito esquisito: barbas longas e negras, óculos de grau, vestia uma surrada calça Lee e caminhava sempre com um livro embaixo do braço, invariavelmente de Machado de Assis, Eça que Queiróz, Jean paul Sartre, Gabriel Garcia Márquez ou Pablo Neruda e poesias de Augusto dos Anjos.
Alcino costumeiramente, após o almoço, que recebia numa vianda, da própria D.Júlia, que era sua tia, se deslocava para a mesa bem nos fundos do Bar “Chave de Ouro”, frente à praça Dr. Fernando Abbott, nome de um ex-governador do estado. Dali só saía com o último freguês.
Seu Ferreira, não cobrava os cafezinhos e copos de água que servia à Alcino e nem o jornal do dia ali posto, pois ali afluíam a juventude da cidade, interessadas em resolver questão literárias não bem explicadas nas aulas.
Alcino era um ídolo e antes mesmo do primeiro cafezinho ou pegar o jornal, os admiradores e fãns já encostavam. Ele atendia a todos.
--As vezes a vida é longa, às vezes é curta—dizia a alguém preocupado com a saúde.
--Quem é paciente sabe esperar—filosofava, aconselhando moderação.
--Da terra nada se leva—recomendava com solenidade a quem queria vender seu campo herdado.
--Felicidade é saber ser feliz –ensinava a quem reclamava da vida;
Era uma unanimidade em Caixa-Prego, uma bela cidade quase fronteiriça. Um patrimônio cultural da cidade, admirado e respeitado, antes dele só o Rubens Elwing ou o Osvaldo Nobre, ou... Bem...
Um político achegou-se e perguntou se devia se candidatar a prefeito –Numa eleição, se ganha e se perde, não há como empatar.
Mas como é normal, havia um ciumento, que gostava muito da Rosinha, umas das meninas que viviam no Chave de Ouro fazendo perguntas. Rosinha era linda, fogosa e fora rainha de Caixa-Prego ano passado, mas era fã de Alcino, e Murilo, um jovem acadêmico, não gostava disso.
Murilo resolveu desmoralizar Alcino e avisou alguns amigos para à noite iremos no bar. O assunto ficou público e uma hora antes já não havia lugar para todos que se acotovelavam em volta da mesa do Alcino, que calmamente tomava seu cafezinho lendo o jornal do dia.
--Oi Alcino, eu acho que tu não é filósofo coisa nenhuma.
--Houve um burburinho de aprovação.
--Pois eu penso que tu vive enganando as pessoas—continuou Murilo.
--Ninguém engana ninguém. Na verdade, a vida é que engana as pessoas –respondeu Alcino.
Ecoaram palmas e gritos de “muito bem”.
--Você não tem cultura! –gritou Murilo e continuou: -- Você é um farsante.
Alcino não perdeu a fleuma e sem olhar, respondeu:
--O que a farsa? Uma representação? O que somos, senão atores no teatro da vida?
Ouvem-se assobios, gritos e palmas para Alcino. Mas Murilo não se entregou e abafou tudo aos berros:
--Você não é filósofo porque só diz o óbvio!
Houve silêncio, expectativa para a resposta. Alcino baixou seu livro sobre a mesa, tirou os óculos, passou a mão nos cabelos caídos nos olhos, fitou não Murilo, mas o horizonte e respondeu:
--O óbvio é dizer que filósofo só diz o óbvio.
Foi um delírio. Rosinha atirou-se nos braços de Alcino e o beijou na boca. Os estudantes aos gritos de “filósofo, filósofo” o conduziram em passeata pela rua frente á praça.
Murilo recebeu uma cadeirada e ficou se maldizendo no bar.
No balcão bebendo sua cachacinha, dr. Vespúcio vibrava:
--Data vênia, trata-se de um erudito. Salvo melhor juízo!

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