Fala leitor!

Tarso Francisco Pires Teixeira
Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel
Vice Presidente da Farsul

Conversa para “Friboi” dormir – São tantas contradições...
Depois da agressiva e bem-sucedida campanha de marketing em que Tony Ramos abordava pessoas no supermercado perguntando qual carne o consumidor estava comprando, a Friboi desceu mais alguns degraus na ousadia, recrutando ninguém mais ninguém menos que o “rei” Roberto Carlos, que se permite filmar diante de um naco de bife. Não, o rei não chega a comer a carne, mas o seu presumido abandono do vegetarianismo deu o que falar nas mídias e redes sociais. A propaganda, como arte, acompanha e interfere nos dogmas sociais, e com certeza tem muito a nos dizer a respeito de como andam os valores corporativos no Brasil.
As críticas que o artista tem sofrido por sua participação na campanha de um frigorífico uniram vegetarianos, veganos e até carnívoros assumidos que também não gostaram do que consideraram uma súbita “conversão” do rei, que teria aberto mão de “valores” (princípios) em nome de “valores” (moeda sonante). Exageros, já que Roberto Carlos nunca foi vegetariano de fato. Apenas tinha declarado em entrevistas que há anos não comia carne vermelha, por um destes preconceitos mal-informados que ensinam que a carne vermelha será sempre e necessariamente menos saudável que as brancas, quando há muitas situações em que ocorre justamente o contrário. 
Aliás, é justamente este tipo de desinformação que faz peças publicitárias como as da Friboi, virarem sucesso de crítica. Estranhamente, muitos brasileiros “compraram” a idéia de que a empresa seria a única a oferecer carne de qualidade por abater com rigor higiênico e possuir selo de inspeção, coisa que qualquer pequeno abatedouro precisa ter para operar no país. Além do que, a Friboi não é como a Coca-cola, que realmente fabrica um produto original. A Friboi, como qualquer outro frigorífico, não “fabrica” carne, apenas abate o que é fornecido pelos pecuaristas. Portanto, o que realmente o consumidor precisa prestar atenção, nada tem a ver com a embalagem, mas sim com o conteúdo, a procedência da carne, se o animal foi alimentado com pastagem ou ração animal, se a região possui controle da aftosa e outras zoonoses, e se é proveniente de raças de sabor apurado, como no caso da carne gaúcha.
É compreensível a reação de parte do público que rejeita mudanças súbitas de opinião em seus ídolos, num país onde valores e convicções têm preço. Mais preocupante é que a desonestidade intelectual, que apresenta o Selo de Inspeção Federal quase como uma propriedade exclusiva do grupo anunciante, encontre eco na publicidade e nos meios de comunicação, induzindo o espectador a um pensamento que favorece as tentações monopolistas da empresa. Isso sim é mais sintomático do que um senhor já bastante crescido comer ou não comer um bife mal passado, tendo como pagar por ele. O próprio rei poderia, parafraseando uma conhecida canção sua, dizer: “se comi ou não comi, o importante é que o cachê eu recebi”...

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