Textículos do Mário Mércio

Mário Mércio
Escritor e colunista do blog

EU NÃO SEI
A vida, depois dos sessenta é muito boa, a não serem algumas dificuldades da idade. A gente tem mais a ensinar do que aprender, embora se aprenda a toda hora. Costumo, na lide diária ter alguns cuidados com o que falo, até porque, não gostaria de dar mau exemplo a ninguém. E assim, quase toda indagação que chega a meus ouvidos eu replico com um singelo “eu não sei”. Pode ser um atestado de burrice, diz o articulista Hugo Lengert do VS, mas são tantas as informações geradas que se vive exposto, que acabamos ficando numa ciranda duvidosa. Sei que pode aparecer uma ofensa para esta geração, que acredita que ter todo o conhecimento humano ao alcance de alguns cliques. Mas na minha idade, estou mais para bombeiro do que para incendiário e gosto de sempre ir apagando o calor de uma discussão com o meu infalível ”não sei”. Esta atitude tem levado alguns amigos e parentes à raia da loucura, entretanto isso nunca me abalou, pois acabo rindo da presunção daqueles que acham que sempre possuem resposta para tudo.
Dia desses, recebi uma visita ilustre. Um amigo escritor que se fazia acompanhar do neto de 10 anos, já tarimbado na internet. Aqueles guris de olhos acesos, perscrutadores e chegou pronto para um duelo. Um verdadeiro duelo, pois criança tem sempre um mundo de interrogações na ponta da língua. O guri já chegou sacando as primeiras de muitas questões do coldre:
--Por que o milho verde é amarelo?
--Eu não sei- respondi.
Por que a laranja se chama laranja e o limão não se chama verde?
--Eu não sei.
Depois de muitas perguntas sobre cores, vieram muitas outras questões sobre diversos outros assuntos. Fiquei esperando o guri sabido tomar fôlego pra próxima rodada e pus fim ao questionário, com a seguinte declaração:
--Filipe, é natural ter tantas dúvidas e durante sua vida você vai descobrir muitas respostas para muitas destas perguntas. “Eu não sei” não é resposta para tudo, mas, às vezes, vai ser a melhor resposta ou a única que você vai ter. Você vai notar que quanto mais você aprende, mais consciente você se torna de tudo que você não sabe e nunca vai saber. Todos temos limites, mas buscamos superá-los, mas não sejamos arrogante a ponto de achar que sabemos todas as respostas.
Tive de rir, vendo a expressão de surpresa do Felipe que não esperava esta resposta e esta lição, para ele incompreensível. Digo incompreensível, pois criança tem o privilégio de expor sua ignorância sem ser alvo de chacota. E completei:
--Felipe, você me parece ser um jovem inteligente, arguto, e um dia você vai me entender melhor.
E vendo aquele oráculo da web me olhando meio assustado, vi mesmo que não existe resposta mais libertadora do que um simples “eu não sei”.

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