Ódio do artista, amor do povo: o campo na cultura popular

Tarso Francisco Pires Teixeira 
Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel 
Vice Presidente da Farsul


Desde uma recente cirurgia, tenho que obedecer a recomendações médicas de repouso clínico, o que tem feito com que permaneça mais tempo em casa, diminuindo o ritmo dos compromissos institucionais à frente da presidência do Sindicato Rural de São Gabriel. Isso tem me dado tempo para, finalmente, acompanhar um pouco da programação da tevê brasileira, e compartilhar do assombro que alguns amigos tem sobre a degradação de valores vendida como entretenimento. Agora mesmo, a Rede Globo exibe em seu horário nobre uma telenovela que, apesar de se chamar “Em Família”, apresenta um repertório quase inesgotável de ataques à família. Filha que se apaixona pelo sujeito que enterrou vivo seu próprio pai, advogado que dá tiros a esmo no novo marido da sua ex-mulher, esposa que deixa o marido e o filho para viver um romance com outra mulher, e outras bizarrices, que deixariam o dramaturgo Nelson Rodrigues com vergonha. Mas uma coisa me saltou aos olhos: na trama desenvolvida pelo autor, as peripécias desta família inteiramente desajustada tem tudo a ver com sua origem social: produtores rurais do interior do Brasil (ainda que morando numa capital estadual muito próspera, Goiânia).
Não é de hoje que as telenovelas vendem a imagem do produtor rural como arrogante, vilão ou hipócrita. Desde os tempos do Sinhozinho Malta, criação de Dias Gomes, o produtor de alimentos é apresentado segundo a ótica preconceituosa de certa arte “engajada”, que tem antipatia pelo campo, sua herança cultural, sua história, seus valores. E enquanto as grandes redes de TV ostentaram o monopólio da difusão de informação no Brasil, essa visão distorcida da realidade perdurou por bastante tempo. O advento da internet e das redes sociais colocou em cena novos mecanismos de informação, e hoje em dia não é todo mundo que compra o olhar das grandes redes. Talvez por isso a referida novela seja uma das piores audiências da história da emissora, pois ao apresentar uma família desestruturada vinda do campo, insinua que os valores de milhões de famílias brasileiras sejam hipócritas ou ultrapassados. 
O que os artistas e produtores de tevê parecem não entender, é que o brasileiro tem orgulho de suas origens rurais. Mesmo os gêneros musicais que hoje fazem sucesso nos meios urbanos, com o rótulo de “universitários”, são derivações daquela mesma música que falava da terra, do gado, da roça. O sertanejo do Brasil central, o forró do nordeste, o regionalismo gaúcho e a arte quase universal de gênios como Renato Teixeira, Almir Sater, Sérgio Reis e outros tantos, mostra o quanto o brasileiro tem suas raízes culturais e morais bem fincadas no campo – Esse campo que é o único setor da economia que mantém o PIB nacional em crescimento, para desgosto de muitos economistas urbanos que vivem falando em riscos de o país virar mero exportador de “commodities”, como se ainda vivêssemos na década de 70. O agronegócio brasileiro é competente produtor de pesquisa científica, tecnologia e valor agregado, e isso já há bastante tempo.
E assim, sob o ódio de autores e atores de telenovela, em descompasso com o amor profundo de cada brasileiro por suas raízes emocionais e culturais, o agronegócio continua tendo um lugar todo especial, não somente na economia, mas na cultura popular e na memória afetiva do povo brasileiro.