Textículos do Mário Mércio

Mário Mércio
Escritor e colunista do site

APAGAR OU DESLIGAR? 

Maldita herança dos tempos da lamparina, do lampião, das velas, onde agente apagava-os com um sopro ou até com os dedos. Depois vieram as lâmpadas incandescentes que foram o refúgio do fogo como instrumento de iluminação e nos continuamos apagando fogo por uma vida inteira. Nossos avós, pais e até alguns de nós conhecemos muito bem o que era apagar e acender. Sim, pois se acesso, só apagando, não se podia simplesmente “desligar”. 
Hoje a situação se inverteu, a modernidade permite que se utilize energia com tecnologia mais eficiente nas lâmpadas fluorescentes e nas LED e ainda aposentar os velhos bulbos de filamento. 
Não, não é nostalgia, como pode aparecer não se deve ter saudade de algo ultrapassado e perigoso, estamos em nova era. Está fechando um ciclo, um capítulo nas nossas histórias pessoais e até mesmo um capítulo da História da Humanidade, aqui entre-nos. 
Quem morou no interior e mais no interior ainda, em fazendas, sítios, sabe o que falo com mais propriedade, onde até hoje contam histórias dos tempos em que a noite só se usava lampião e vela. Chamas amareladas, algumas fumegantes e cor bruxuleantes, que oscilavam e produziam sombras meio fantasmagóricas. Isso persistiu até o início do século XX e até além. 
Dai surgiram muitas lendas e histórias, cujas, os escritores e aproveitavam soberanamente para encantar seus leitores: o sobrenatural. Era uma inspiração da tradicional pintura a óleo baseada em claro-escuro, com lendas apaixonantes. Tudo à luz de chamas. 
Com a luz elétrica, o fogo saiu das velas e passou para as lâmpadas de filamento. Elas não oscilavam, mas mantinham a luz amarelada da incandescência que lhes dá o nome.(por isso não são econômicas) 
Esse é o maior contraste que a gente nota agora nas lâmpadas fluorescentes ou LED, pois a cor é diferente (até melhor) que pode oscilar de um branco azulado até o discreto sépia. É a mudança da cor da noite em nosso lar e nas ruas. Lindo título de um livro: “a cor da noite”, pois já vimos “a cor do dinheiro” e os “50 tons do cinza” (trilogia que estou lendo). 
Mas resta resolvermos um importante detalhe: não digamos mais APAGAR. ---Mana, apaga a luz! Agora é; --Mana DESLIGA a luz. Claro, pois não temos mais fogo, é energia elétrica e energia se desliga ou liga. 
Ficou mais difícil aos escritores achar fantasmas agora, com essa iluminação toda.... 
Até porque no início da semana que vem, vence o prazo para que as indústrias não mais fabriquem as lâmpadas de 60 watts, sendo que as demais já foram proibidas. Todas estão aposentadas por bons serviços prestados, mas superadas, assim como nós. Já não se diz com sabedoria que o aluno sempre suplantará o mestre?