Textículos do Mário Mércio

Mário Mércio

Escritor e colunista do site

UMA VIAGEM CULTURAL (também)

Toda viagem é cultural. Aprende-se e ensina-se. Diz Carlito Bicca, cidadão do mundo e amigo de muitos anos, que a melhor forma de se ver e sentir é apalpando a natureza. Bem, se ele não disse, pelo menos me deu a impressão de ter dito. E ele sabe o que diz. Pudera!
Conheci em 10 dias de viagem ao nordeste brasileiro a cultura indígena. Um pouco de nosso índio. Esse incompreendido! Na Paraíba, em Baía da Traição, cidade com sete mil habitantes, vi e senti o que é uma cultura indígena, o que por certo vai intrigar muita gente. Cidade com 80 % de índios. O índio fala pouco. Pensa muito. Nas ruas convivem entre o asfalto, paralepípedos, carros, motos (muitas) jegues, reses, e animais domésticos. As calçadas não são para os pedestres e sim para os donos da casa na frente delas, para a saída de carros, inclusive com muretas baixas delimitando a área. Transeuntes andam também pela rua. Em todas as aldeias tem escola pública. Na cidade quem manda é o Cacique que é o prefeito há muitos anos. Vereadores 80% são índios. Acima do Cacique está o Pajé, o índio velho que já foi cacique. Velhice é sabedoria incontestável para eles. A simbiose do trânsito entre os animais o mantém mais seguro, vagaroso e cuidadoso. Nenhum índio machuca um animal. Na frente das casas os moradores deixam restos de comida para os animais, que ali chegam a procura de alimento. Índio não é obrigado a ser fiel na relação amorosa. Alguns possuem mais de uma mulher ou índia com mais de um índio. O Cacique de uma aldeia me disse que quando não há amor há a traição e que isso não deve ser questionado por ele. Eles que resolvam! Sobre futebol, me disse que é um esporte e como tal deve ser visto e sentido. Nunca se deve criticar seu time. Deve-se torcer sempre e ter a esperança que um dia ganhará e que sempre se ganha e se perde. Lá só entra a polícia federal (se a encrenca for grande) que não tem na cidade. A civil e militar só se for chamada pelo Cacique. Os vícios são permitidos, mas a maioria dos Caciques não aceita o tóxico, mas alguns levam vantagens dos traficantes e já se vê índio viciado.
A alimentação é 100 % peixe e moluscos, com mandioca (que lá tem outro nome). São pobres que comem camarão e lagostas todos os dias. Paguei para duas pessoas R$ 10,00 para comer lagosta e camarão à vontade. Não há carne na cidade e quando aparece fica pendurada ao ar livre, salgada e vira carne de sol, assim como peixes aqui. Churrasco não comem nunca. Acham que sacrificar animais é uma ofensa a seus deuses. A religião mais praticada é a evangélica. Há grutas por toda cidade e igrejas e ainda carros com alto falante pregando a fé em Cristo. O álcool é o maior mal entre eles. Possuem bastante terra para plantar e cultivam mandioca e cana de açúcar para venda. Os mais jovens são pescadores e vendem seus produtos no comércio. Quando chega a época da desova ganham auxílio do governo para não pescarem. E passam só bebendo esse tempo, deitados em redes em suas ocas. Veem-se muitas casas de barro, presas por taquaras e varas finas. O coco é muito usado como doce e sua água serve para cozinhar e fazer molhos no peixe e demais pratos. Meu filho é bioquímico de todas as aldeias e verificou que não existe colesterol entre eles. Não são afetos a remédios e só procuram na extrema necessidade o posto de saúde da cidade. No posto tem médicos, um de plantão e outro visitando as aldeias e um dentista.
E assim eles vão vivendo e levando a vida. O que você acha? Gostaria de ser um índio brasileiro?