Espaço do leitor:

Tarso Francisco Pires Teixeira
Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel
Vice-Presidente da Farsul

A Intervenção da decência
O agravamento da crise econômica, o conteúdo assombroso das denúncias e delações nas Operações “Lava-Jato” e “Juízo Final” da Polícia Federal revelando uma quadrilha bilionária na Petrobras, a inflação sem controle e, acima de tudo, a diferença gritante entre o discurso recente da Dilma-candidata e as práticas de Dilma-presidenta, tem mobilizado dezenas de protestos nas capitais e demais grandes cidades brasileiras, agendados através das redes sociais. A bandeira que unifica as diferentes reivindicações dos brasileiros que estão indo às ruas, é o retorno da decência na vida pública, o fortalecimento das instituições e o combate a todo cerceamento da liberdade de expressão.
Estranhamente, um movimento popular que pede mais liberdade de imprensa, é ignorado (e, em certos casos, até criticado) pela chamada “grande imprensa”. A mesma imprensa que aplaudia os protestos violentos de junho de 2013, com seus “Black blocks” e seus atos de violência que resultaram na morte de um cinegrafista, agora critica e evita dar espaço para marchas pacíficas, sem desordens, feitas por cidadãos que trabalham duro o dia inteiro, mas estão encontrando um tempo em sua agenda para lutar pelo seu país. O silêncio é justificado. Em muitas destas marchas, pedidos individuais requeriam o impeachment da Presidenta, e alguns clamavam pela Intervenção das Forças Armadas. Foi o que bastou para estes protestos serem chamados de “golpistas”.
Ocorre que nem um impeachment, nem uma intervenção militar seriam golpes, pois são ferramentas previstas pela Constituição Federal. Collor sofreu um impeachment no Congresso, com toda a bancada do PT votando a favor, e ninguém na mídia os acusou de ilegalidade.
Quanto à intervenção que vem sendo pedida com muita força nas ruas e nas redes sociais, a grande “rua virtual” do século XXI, não há como negar: o clima de indignação é idêntico ao vivido cinqüenta anos atrás, quando mais de um milhão de brasileiros foram aos protestos da Marcha da Família em Defesa da Liberdade. Hoje os professores de história não contam, mas o fato é que o governo brasileiro da época mantinha relações mais que escusas com a ditadura soviética – do mesmo modo que hoje a diplomacia brasileira volta-se hoje para ditaduras populistas. 
O país de hoje é diferente, em vários aspectos, do Brasil de 50 anos atrás. Mas hoje, como ontem, a intervenção que se precisa é da decência, da ética na vida pública. E é bom que os governantes ouçam este apelo, antes que de fato seja tarde.