Da Afirmação à Negação


Os rumos éticos da atual política nacional, com todos os seus desalinhos e equívocos, não nasceram da noite para o dia. O Brasil de hoje é um resultado tão lamentável quanto previsível, de erros cometidos com dedicada convicção ao longo de vários anos. Como na anedota do jabuti em cima da árvore, que só foi parar lá porque alguém o colocou, recorrer à história recente sempre nos ajuda a compreender a origem do presente estado de coisas. E, se a política brasileira nunca foi exatamente um terreno propício para santos, também há que se reconhecer que os poucos bons exemplos, capitularam com uma lamentável facilidade.
Corria o ano de 2008, e pela primeira vez uma personalidade vinda da política partidária assumia a presidência da CNA. A senadora Kátia Abreu assumia a maior entidade do agronegócio brasileiro, fazendo um discurso intitulado “Afirmação e Ruptura”. Ali, está registrada a fala de uma corajosa líder não somente do setor rural, mas de um pensamento alinhado com o respeito às leis e aos contratos, o Estado de Direito e a liberalização econômica – o oposto ideológico do estatismo delirante, burocrático e intervencionista dos governos Lula e Dilma.
Alguns trechos de sua fala no dia de sua posse, em 16 de dezembro de 2008, ainda hoje são de arrepiar: “por respeito às minhas convicções democráticas, recusei as utopias estéreis, por mais que parecessem generosas, e as aventuras fantásticas, por mais que acenassem com poder e fortuna”. Noutro trecho, diz: “a mão onipresente e implacável que cobra os deveres, que recolhe impostos e pune infrações, precisa ser acompanhada da que prevê e provê serviços públicos (...). Será razoável que estejam permanentemente esburacadas e intransitáveis as rodovias responsáveis por 62% do escoamento das safras? Quem nos indeniza dos deságios nos preços das exportações? Será razoável negar garantia de renda ao produtor rural?”
Sete anos após esta fala tão dura quanto coerente, a situação do país e da agricultura não melhorou, antes pelo contrário. Só que agora, a conservadora Kátia Abreu migrou da CNA para a Esplanada dos Ministérios. O apelo das utopias estéreis e das aventuras fantásticas finalmente foi atendido. Por que razão uma outrora defensora da livre iniciativa tornou-se ministra de um governo cujos principais desastres de corrupção se dão justamente por sua vocação clientelista e intervencionista?
Se no discurso de sete anos atrás o mote de Kátia Abreu era “afirmação e ruptura”, talvez o lema de seu mandato à frente do ministério mereça ser “negação e adesismo”. Negação de todo um passado dedicado às principais conquistas da civilização, e adesismo a um projeto de poder que vicia o estado em práticas deletérias há doze anos.
Talvez valesse a pena a excelentíssima ministra reler os próprios discursos. Quem sabe reencontraria, na voz da Kátia do passado, um conselho vibrante: “O compromisso da honra não se perde jamais para tentar recuperar depois”.