A pecuária e a crise gaúcha: soluções à mesa

Tarso Francisco Pires Teixeira 
Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel Vice Presidente da Farsul

A pecuária de corte, mais especificamente a bovinocultura, é sem dúvida a atividade econômica mais antiga do Estado. A própria existência do gaúcho, como identidade cultural distinta, com seus hábitos, costumes e formação, não seria possível sem a introdução do boi no cenário do pampa pelos açorianos, sem as primeiras charqueadas, sem as estâncias que deram origem a centenas de cidades. Hoje, quando se discutem os rumos do Estado e as saídas possíveis para a crise financeira que afeta o setor público, o futuro do Rio Grande passa necessariamente por onde um dia trafegou o seu passado: a pecuária de corte, setor antigo, porém moderno, da nossa economia.
Inegavelmente, as lavouras tem sido responsáveis diretas pelos ciclos virtuosos do campo nos últimos anos, especialmente o soja, que influenciou o PIB do Estado a índices chineses de crescimento até meados de 2013. Apesar do avanço de áreas plantadas em todo o Estado, a pecuária gaúcha conseguiu manter, na maioria dos casos, o mesmo nível de produtividade, mesmo em áreas menores de pastagens. Isto foi possível porque o pecuarista riograndense é um dos mais modernos do mundo, e trabalha com seriedade na qualidade dos seus rebanhos, além de ser o Estado que melhor tem conseguido implementar a integração lavoura-pecuária, em seus devidos ciclos. Mas para um Estado que precisa não somente cortar despesas, mas também gerar receitas novas, incrementar a competitividade de um dos setores mais criativos e dinâmicos de sua economia é fundamental. E isso passa necessariamente por medidas que clamam pela unidade dos produtores rurais frente ao governo. É preciso começar a pensar com seriedade em trabalhar para que o Rio Grande do Sul, a exemplo de Santa Catarina, adquira novo status sanitário, de Zona Livre de Aftosa sem Vacinação. O atual estágio, com vacinação, ainda não é o ideal para quem tem condições de competir em mercados mais exigentes e mais rentáveis.
Outra questão, pela qual alguns governos estaduais tentaram trabalhar sem muito sucesso, é a adoção de um selo distintivo de qualidade para a Carne Gaúcha. Hoje, o maior “case” de sucesso de marketing do setor deve-se à ação de um frigorífico privado que conseguiu capitalizar para si até mesmo o selo de inspeção federal que todo frigorífico precisa ter. O Rio Grande do Sul, apesar de ser considerado uma “grife” da carne, não tem, de fato, uma grife reconhecida. Sim, existem trabalhos exitosos neste sentido feito por diversas associações de criadores de raças britânicas, cada qual concebendo seu selo para valorizar sua carne diante de novos mercados. Entretanto, faz-se necessário conceber uma estratégia única, que valorize qualidades comuns como o sabor diferenciado, a sustentabilidade da alimentação a pasto e sua tecnologia agregada.
É tempo de sentar à mesa, todas as forças vivas da cadeia produtiva da bovinocultura, para buscar estratégias de mercado que incrementem a sua renda. É somente desta forma, maximizando a lucratividade, que o setor poderá continuar se renovando, atraindo a inteligência promissora dos jovens, além de dar a resposta adequada a um Estado que precisa sair com urgência do déficit público em que se encontra.