O Milagre do Soja, o Governo e as Batatas

Tarso Francisco Pires Teixeira
Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel
Vice Presidente da Farsul

Em época de crise econômica profunda, como a que estamos atualmente vivenciando e que já começa a fazer sentir seus influxos inclusive no agronegócio, ainda assim podemos celebrar um tempo de colheita de resultados positivos para a região do Pampa, graças ao avanço significativo de uma cultura específica nos últimos anos: o soja, cuja implantação viabilizou um ciclo benéfico de prosperidade e pujança em diversos municípios, especialmente na região de São Gabriel e Santa Margarida do Sul, onde nosso Sindicato Rural possui sua área de circunscrição. E se hoje o soja é responsável por uma ampla cadeia de novos empregos no comércio e indústria da região,atraindo novas empresas ligadas tanto ao beneficiamento do soja quanto no setor de máquinas agrícolas, isso se deve a uma luta árdua travada no passado recente.
Quando os primeiros produtores rurais da região começaram a investir em soja, em meados de 2005, o governo federal demonstrou absoluta má vontade com a idéia, já que o soja era uma cultura tradicionalmente ligada à metade norte do Estado, com outras características de solo e clima. De fato, nas suas primeiras experiências, muitos foram os casos de frustração de safra, o que levou o governo a ratificar sua posição contrária á presença do soja na região. Por anos a fio, o Zoneamento Agroclimático do soja, elaborado pelo Ministério da Agricultura, excluía os municípios de São Gabriel e Santa Margarida do plantio das variedades comerciais de soja, buscando com isso impedir que os bancos oficiais pudessem financiar sua produção. Lembro, particularmente, do ano de 2007, quando produtores corajosos organizaram uma Abertura Regional da Colheita do Soja em Santa Margarida do Sul, e palestrantes ligados ao governo defendiam abertamente o fim do plantio de soja e o investimento em outras culturas, como mandioca brava e batata doce. A inconsistência da posição do governo era tão gritante que nem mesmo o Centro de Ciências de Estudos do Solo da Universidade Federal de Santa Maria, a mais próxima da região, referendava seus estudos. 
Aos poucos, com investimento em tecnologia e produção, o sojicultor da região foi demonstrando a viabilidade econômica do plantio. Para isso foi fundamental a insistência na integração lavoura-pecuária, a rotação com culturas de várzea como o arroz, foram integrando o soja no cenário regional, sem provocar o desaparecimento das demais culturas. Como resultado, hoje a região de São Gabriel e Santa Margarida já tem uma área plantada de 130 mil hectares, possuindo ainda uma vasta fronteira agrícola a desbravar, caminhando para ser, em poucos anos, a maior região sojicultura do Estado.
Isso não quer dizer que a atividade não tenha riscos, como é inerente a qualquer atividade produtiva. Mas sem dúvida, está muito longe do cenário de catástrofe que o governo pensava quando pretendia nos proibir de plantar soja e nos mandou – de verdade – plantar batatas. 
Não obedecemos. Ainda bem.