Coluna do Airton Bittencourt

Airton Bittencourt
Colunista do site

A Consciência Humana precisa se conscientizar
O dia 20 de novembro desperta atitudes equivocadas e odiosas; muita gente se sente desconfortável com o fato de existir no Brasil uma data voltada para se falar do racismo. Essas pessoas se contorcem em agonia, porque não suportam encarar a negritude sendo feita protagonista de algo. O Dia da Consciência Negra incomoda demais.
Entre as diversas colocações distorcidas feitas a respeito do racismo, há muitos que simplesmente aconselham ignorar a existência da discriminação racial como forma de eliminá-la. O equívoco racista é um vírus tão contagioso que até mesmo uma instituição como a Ordem dos Advogados do Brasil, mais especificamente o seccional de Sergipe, publicou em sua página oficial do Facebook uma imagem lamentável, sugerindo que o racismo deixará de existir quando não falarmos dele.
Outros, ainda mais adeptos de clichês, dizem que não deveríamos falar da “Consciência Negra”, mas sim da “Consciência Humana”. Insinuam com isso que falar do racismo é a verdadeira causa da desigualdade e que, portanto, quando não enxergarmos mais as diferenças dos outros, não haverá mais discriminação. Tal lógica poderia ser considerada no mínimo ingênua, se não fosse, acima de tudo, extremamente perigosa.
O racismo não existe porque somos diferentes e enxergamos as nossas diferenças, tampouco deixará de existir se não falarmos dele. De fato, nenhum problema social de um país, assim como nenhum problema subjetivo de um sujeito, deixará de existir caso não se fale nele e se tente ignorá-lo. Pelo contrário, fechar os olhos para um problema faz com que ele cresça e se multiplique. O racismo já é uma mazela enraizada em nossa sociedade, já cresceu e se multiplicou em nossa cultura de uma forma tão cruel que dificulta tremendamente a conscientização e causa rejeição ao seu combate.
A Consciência Humana de hoje, caros amigos, é uma consciência fragmentada em valores de exclusão e atitudes hierarquizadas que reproduzem lógicas de poder e subjugação. Essa consciência é pouco humanizada e encontra as desculpas mais estapafúrdias para perpetuar a dominação de uns sobre os outros – de fato, a desumanização é tão profunda que a diversidade e as diferenças acabam se tornando coisas ruins, para as quais devemos fechar os olhos. Seu ideal é que viremos uma grande massa padronizada, muito bem encaixada em moldes específicos de pele clara, olhos claros, narizes afilados e cabelos lisos.
Por toda a discriminação pela qual as pessoas negras ainda são submetidas no Brasil, mesmo neste exato momento, hoje não é o dia da Consciência Humana. Hoje é o Dia da Consciência Negra, dia de lembrar as consequências nefastas da escravidão no Brasil e de reconhecer que até hoje vivemos os resultados perversos e cotidianos do racismo. Num país que escravizou pessoas negras e teve como política oficial de Estado a tentativa de eliminar o negro da nação, o mês de novembro deve sempre ser uma oportunidade para que a vergonha do racismo não seja esquecida.

Salve Zumbi, Salve Dandara, Salve Negritude Brasileira!