Opinião: Duas Mulheres em seu labirinto

Tarso Francisco Pires Teixeira
Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel 
Vice Presidente da Farsul

No momento em que a crise política e institucional do país entra em sua fase mais aguda, com o Impeachment avançando no Congresso Nacional e o governo e seus apoiadores partindo para o “tudo ou nada”, a Confederação Nacional da Agricultura emite nova nota oficial a respeito da crise, aprovando de forma clara e inequívoca a defesa do impedimento constitucional da presidente da República. A posição é tomada semanas após outra nota, mais lacônica, que tão somente manifestava “preocupação” com a gravidade do momento da Nação, e que gerou manifestações de produtores, federações e sindicatos rurais de todo o país, pedindo uma postura mais enérgica. 

Não é nada desprezível que a entidade representativa dos produtores rurais brasileiros, o setor da economia que ainda resistia diante da crise econômica e mantinha bons números da balança comercial, se mobilize oficialmente em apoio ao impeachment. Especialmente porque foi desta confederação que surgiu, nos últimos anos, a liderança da atual ministra da Agricultura, a senadora Kátia Abreu, que na sua emblemática carreira política já foi de um extremo ao outro do espectro ideológico: de musa da oposição liberal a “melhor amiga” e defensora da presidente cujo mandato ora balança.

Eram adversárias quando se conheceram. Uma, chefe da Casa Civil do ex-presidente Lula. Outra, uma das eminências da oposição a Lula, feroz defensora da livre iniciativa e do Estado de Direito, denunciando sempre o terrorismo rural de parceiros de primeira hora do petismo, como o MST. No convívio institucional, descobriram afinidades insuspeitas. Ambas, mulheres habituadas ao mando. Ambas, de temperamento indócil. Ambas, com um apetite especial para o exercício do poder...como não se tornariam amigas? Tanto se aproximaram que Dilma tornou-se madrinha do novo casamento de Kátia, e também “madrinha” de sua nomeação para o ministério, que a presidente “bancou” em sua cota pessoal, angariando a antipatia tanto dos produtores rurais – traídos pela sua antiga líder – quanto dos petistas históricos – que tiveram de parar de chamá-la de “Miss Desmatamento”.

Mas, como dizia Confúcio, “ás vezes o Céu castiga certas pessoas dando-lhes tudo”. Guindada ao cargo político mais importante para quem vem do setor rural, a ministra, que mesmo fora da CNA seguia sendo uma voz influente, vê agora a Confederação que um dia liderou, contrariar suas posições. Dilma e Kátia, de mãos dadas, caminham no mesmo labirinto do poder. O que a antiga Kátia, senadora do então PFL, diria da Kátia ministra hoje em dia? Será que não teria vergonha e consternação diante da sua presença em um governo acossado por ilegalidades várias? Quando, nesta semana, líderes da Contag ameaçaram invadir fazendas de deputados para pressioná-los a não votar pelo impeachment, não sentiu-se mal por ter que fazer silêncio a respeito?

Labirintos não são, de fato, lugares agradáveis de se estar. Mas as escolhas políticas e individuais destas duas mulheres, as conduziram a este momento. É possível, ainda, saírem dele com dignidade. Mas a essa altura, é possível que o povo esteja menos preocupado com o destino delas do que com a tarefa mais urgente: tirar o próprio país do labirinto político.