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Reforma Protestante: legado e futuro às vésperas dos 500 anos

Reverendo Cláudio Moreira
Teólogo, escritor e acadêmico de Sociologia

Na manhã outonal de 31 de Outubro de 1517, poucos deram importância quando um jovem frade de 34 anos, membro da Ordem dos Agostinianos, atravessou a passos firmes e decididos a praça de Wittenberg, em direção à Catedral, onde era o pregador. O vendedor de frutas e o artesão que trabalhava ao ar livre, nem notaram quando aquele frade, Doutor em Teologia e professor na universidade da cidade, pregou na porta da igreja um longo documento, escrito em latim, em cujo título se lia “Disputatio pro Declaratione virtutis indulgentiarum”. O texto expunha, em 95 artigos, uma contestação ao abuso da Igreja na venda de indulgências – diplomas assinados pelo papa ou por arcebispos, garantindo o perdão de pecados, e convocava um debate sobre o assunto, na cátedra de Filosofia da universidade. Ninguém compareceu ao debate convocado pelo frei agostiniano Martinho Lutero, mas o seu vigoroso protesto – graças à prensa de tipos móveis de Gutemberg, que havia inventado recentemente a imprensa – circulou por toda a Europa, abrindo caminho para uma onda irreversível de indignação contra a corrupção política, financeira e espiritual da Igreja de Roma. O evento seria conhecido para sempre como “Reforma Protestante”, e seria, no dizer do filósofo britânico John Rawls, o “marco inaugural da pluralidade na civilização ocidental”. Segundo Habermas, a liberdade de crer de forma diferente, é a base de todas as demais liberdades – e, portanto, da democracia.
O frade alemão, indignado com o comércio de indulgência praticado por Frei Tetzel, que cantarolava “assim que a moeda no cofre cai, a alma do purgatório sai”, foi iluminado pela leitura da Bíblia que ganhou de presente de seu mentor, João Staupitz (era um tempo em que a Bíblia era proibida aos leigos e rara entre os próprios sacerdotes), na passagem de Romanos 1;17, onde o apóstolo Paulo de Tarso repetia as palavras ditas por Deus ao profeta Habacuque, do Antigo Testamento: “o justo viverá pela fé”. Esta simples expressão foi devastadora para todo um sistema religioso baseado em sacrifícios, relíquias e penitências condicionadas a pagamento em moeda sonante. O protestantismo – que recebeu esse nome quando príncipes alemães protestaram contra a decisão da Dieta de Worms em proibir a fé nascente em toda a nação – baseou-se para sempre nesta leitura, expressa em 5 Sentenças: Somente a Graça, Somente as Escrituras, Somente Cristo, Somente a Fé, Somente a Deus toda a Glória. 
Com sua tese do livre-exame da Bíblia pelo simples fiel, o novo movimento teve impacto irreversível na sociedade, na educação popular e alfabetização das massas, impulsionando o desenvolvimento experimentado nos últimos cinco séculos. Mas também gerou uma infinidade de filhos os mais diversos – alguns, muito diferentes entre si. Igrejas protestantes históricas, evangélicas tradicionais, pentecostais e neo pentecostais diferem muito entre si, mas comungam de princípios centrais comuns, como a centralidade da Bíblia na experiência devocional do fiel. Em um país como o Brasil, com uma crescente população evangélica (que pode se tornar maioria do país em 2030), entender esse fenômeno social será cada vez mais importante. 
Sim, a caminhada deste segmento da igreja cristã não tem sido perfeita. Abusos de toda sorte tem motivado muitos teólogos a pensar se já não seria a hora de uma “Nova Reforma”. Modestamente, penso que basta apenas enfatizar os princípios dessa que já ocorreu, para que a caminhada seja mais sadia, na direção e vontade expressa por Cristo – o verdadeiro e único chefe absoluto da igreja.