Sobre Vaias e Silêncios

Tarso Francisco Pires Teixeira
Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel
Vice Presidente da Farsul

Corria o já distante ano de 2007 (o tempo passa realmente muito depressa). O então presidente Lula, considerado um mito eleitoral invencível, sofre uma vaia no Maracanã lotado, durante a abertura dos jogos pan-americanos. Parte da imprensa, atordoada com uma vaia inacreditável ao “grande timoneiro”, correu a buscar explicações. Tudo teria sido uma armadilha do então prefeito César Maya, do Rio de Janeiro, notório adversário político do ex-presidente. Outros, em seguida, partiram para a tese de que as vaias vinham de classes abastadas, que podiam pagar os caros ingressos para a cerimônia – tese que seria repetida nos anos e nas vaias seguintes. Embora fizesse apenas dois anos do estouro do escândalo do mensalão, tudo ficou resolvido com a idéia de que os ricos estavam insatisfeitos com o governo popular, e a vida seguiu.
O tempo passou, e a já presidente Dilma abriu a Copa do Mundo, em pleno ano eleitoral de 2014. A vaia reverberou, sonora e robusta, mas logo os jornalistas amigos correram a socorrê-la com a mesma tese do ódio entre classe. A vaia era “dazelite”, e fez-se mais uma vez silêncio sobre suas causas. A presidente seguiu blindada da realidade, acreditando que a rejeição era fruto das conquistas sociais dos governos petistas.
O escândalo da Petrobras expôs, tempos mais tarde, o maior escândalo de corrupção de toda a humanidade, mas o governo seguiu surdo. Dilma resolve falar em rede nacional, e surge o protesto do “panelaço” nas grandes cidades, no momento exato de seu pronunciamento. Brasileiros vão às ruas em março e abril. Numa visita ao Salão Internacional da Construção, Dilma foi vaiada novamente. Desta vez, eram operários que estavam montando os estandes. Seria a nova “elite”?
Neste mês o Estado de São Paulo realizou o Agrishow, que está para a agricultura paulista mais ou menos como a Expodireto para a agricultura gaúcha. Dilma não compareceu, mas sua ministra Kátia Abreu e seu vice-presidente Michel Temer, sequer puderam discursar por causa das vaias. E agora, ironia das ironias, a presidente decide que não fará o tradicional pronunciamento do Dia do Trabalhador. Desde Getúlio Vargas, todos os governos de esquerda fazem da data um ápice comemorativo. Lula seguiu a tradição que vinha do trabalhismo. Dilma, entretanto, apesar de ser até mais trabalhista do que Lula, não poderá fazer o mesmo, por medo das vaias. 
A vaia, que era algo assustador e inusitado em 2007, virou coisa do dia-a-dia, mantendo a paralisia de um governo que não consegue adotar medidas para enfrentar a crise econômica e nem responde ao clamor ético da sociedade.
Mais chocante do que a vaia do povo brasileiro, é o silêncio das boas atitudes do governo.