Opinião: a estreia de Ronan Mairesse no Coluna Ponto de Vista
A falta de mão de obra pode estar escondendo um problema de
gestão
No balcão de uma loja, às oito da manhã, a placa de
"precisa-se" já virou parte da decoração. "Não aparece gente
disposta a ficar", reclama o gerente. Do outro lado da cidade, uma
indústria acumula tarefas porque não consegue encontrar operadores treinados.
Essa cena se repete em empresas de diferentes tamanhos e setores. Contratar
virou uma preocupação diária. E o problema não está apenas na falta de
profissionais qualificados, mas também na maneira como as empresas tratam quem
chega.
Por muito tempo, bastava anunciar uma vaga, escolher alguém
e esperar que a pessoa aguentasse. Hoje essa conta não fecha mais. Salário
importa, e sempre vai importar, mas sozinho não sustenta um ambiente pesado,
uma liderança que humilha ou uma escala de trabalho que muda constantemente.
Muita gente entra animada e sai esgotada poucos meses depois. Aí a empresa diz
que faltou comprometimento. Mas será que faltou comprometimento ou faltaram
liderança preparada, boas condições de trabalho e perspectivas de futuro?
A contratação não termina quando o contrato é assinado. Na
verdade, uma nova etapa começa quando alguém pisa na empresa pela primeira vez.
Imagine chegar a um lugar desconhecido, com regras que ninguém explicou, sendo
cobrado por algo que você ainda não teve a oportunidade de aprender. Isso não é
cobrança, é desorientação. Segurança psicológica é justamente poder perguntar,
expressar dúvidas, reconhecer erros e aprender sem medo de humilhação. Acolher
bem não é apenas gentileza, é uma decisão de gestão. Apresentar a cultura da
empresa, ensinar sua metodologia de trabalho, acompanhar os primeiros passos e
deixar claro o que se espera de cada profissional são responsabilidades de quem
contrata. Treinar não é um custo extra, é parte do investimento necessário para
desenvolver pessoas e alcançar resultados. Ninguém deveria ser cobrado por
dominar aquilo que não teve a oportunidade de aprender. Esse cuidado reduz a
insegurança e fortalece o aprendizado.
Outro erro comum é achar que uma pessoa ficará satisfeita
fazendo a mesma coisa durante anos, recebendo praticamente o mesmo salário e
enfrentando sempre os mesmos desafios. Tem gente que não sonha com um cargo de
chefia, e está tudo certo. Mas quase todo mundo precisa perceber algum avanço,
aprender algo novo, ganhar autonomia, melhorar a renda ou ser reconhecido pelo
que entrega. Quando o funcionário não enxerga nenhuma possibilidade de
crescimento, mesmo que o ambiente seja bom, começa a olhar para fora. Por isso,
é importante construir caminhos de desenvolvimento, ainda que pequenos, e
deixar claro como cada pessoa pode evoluir dentro da organização. Um plano de
carreira não precisa ser apenas uma escada de cargos. Pode envolver novas
competências, desafios, responsabilidades, reconhecimento e melhores condições
financeiras. O importante é que o profissional perceba que seu futuro também
pode ser construído ali.
E tem outra força ganhando importância nas relações de
trabalho, o propósito. Muita gente quer trabalhar em um lugar que faça sentido
para a própria vida e que também contribua positivamente para o mundo. As
pessoas querem perceber que aquilo que fazem tem valor e que seu esforço
contribui para algo maior. Quem entende o valor do próprio trabalho tende a
encontrar mais significado naquilo que realiza. Mas propósito não é uma frase
bonita na parede do hall de entrada, com líderes gritando pelos corredores. Precisa
existir coerência entre aquilo que a empresa anuncia e o que seus funcionários
realmente vivenciam.
E tem a reputação também. A reputação de uma empresa como um
bom lugar para trabalhar não nasce de uma postagem bonita nas redes sociais.
Ela é construída na conversa do almoço de domingo, no chopezinho da
sexta-feira, naquele encontro por acaso em que alguém pergunta: "E aí,
como tá o trabalho?" É nesses momentos que as pessoas contam como são
tratadas, como seus líderes se comportam e se realmente gostam de trabalhar
onde estão. A imagem de uma empresa como empregadora é construída, principalmente,
pelas experiências de quem trabalha nela. E nenhuma campanha de marketing
consegue sustentar por muito tempo uma reputação que não corresponde à
realidade.
Outro aspecto que merece atenção é a vida que existe fora da
empresa. Ninguém deixa de ser pai, mãe, filho ou cuidador quando bate o ponto.
As pessoas têm famílias, responsabilidades, compromissos e necessidades que não
desaparecem durante o expediente. Empresas que preparam suas lideranças para
compreender essa realidade, oferecendo diálogo, respeito e previsibilidade
sempre que possível, contribuem para relações de trabalho mais saudáveis. Isso
não significa abrir mão de resultados ou responsabilidades, mas compreender que
respeitar as pessoas também faz parte de uma gestão eficiente.
Se você é empresário e está enfrentando dificuldades para
contratar ou manter bons funcionários, deixo um conselho. Olhe com atenção para
estes oito pontos da sua empresa: remuneração e condições de trabalho;
qualidade das lideranças; acolhimento e treinamento; desenvolvimento
profissional e aprendizagem contínua; plano de carreira, crescimento salarial e
reconhecimento; cultura e propósito; respeito à vida familiar; e reputação na
comunidade.
Agora, faça um exercício de sinceridade. Dê uma nota de zero
a dez para cada um desses aspectos, considerando a realidade da sua empresa, e
não aquilo que gostaria que ela fosse. Depois, observe suas respostas e
identifique qual desses pontos merece mais atenção neste momento. Qual deles
você poderia começar a melhorar imediatamente? Converse com seus funcionários,
escute quem está chegando e procure entender por que outros decidiram sair.
Muitas respostas que os empresários procuram no mercado podem estar dentro da
própria organização.
Afinal, antes de reclamar que ninguém quer trabalhar na sua
empresa, talvez seja hora de descobrir o que você precisa fazer para que as
pessoas queiram entrar, permanecer e crescer nela. A dificuldade de encontrar
bons funcionários pode ser do mercado. Mas a dificuldade de fazer com que eles
queiram permanecer pode estar dentro da sua própria empresa.
*Ronan Mairesse autor, mentor e palestrante. Especialista de
performance humana aplicada a resultados em liderança, vendas e execução.
Palestrante mais requisitado do Sul do Brasil
Saiba mais em www.ronanmairesse.com.br.








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